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Sérgio Sacani Sancevero
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    Horizonte de Eventos - Episódio 95 - O Que Existia Antes do Big Bang?

    03/05/2026 | 1h
    Por quase um século, perguntar o que existia antes do big bang era considerado um tabu científico. Era tratado como questão sem sentido, equivalente a querer saber o que existe ao norte do Polo Norte. Os físicos paravam no tempo zero, levantavam as mãos e diziam que dali para trás era metafísica.
    Isso está mudando.
    Um grupo pequeno de cosmólogos espalhados por Londres, Oxford, Princeton, Waterloo e Cambridge está usando uma ferramenta chamada relatividade numérica, alimentada por supercomputadores que devoram milhões de horas de processamento, para atacar essa pergunta de frente. E os resultados que estão começando a sair são desconcertantes.
    Neste episódio do Horizonte de Eventos, Sérgio Sacani te leva pela história completa dessa virada. A jornada começa em 1927, com o padre belga Georges Lemaître propondo a ideia do átomo primordial e levando uma bronca de Einstein. Passa por 1964, quando dois engenheiros da Bell Labs em Holmdel, lutando contra um zumbido na antena e contra pombos que insistiam em fazer ninho dentro dela, descobrem por acaso a radiação cósmica de fundo, a luz fóssil que prova que o universo já foi pequeno e quente. Atravessa 1979, quando Alan Guth tem a "spectacular realization" que daria origem à teoria da inflação. Chega em 2005, quando Frans Pretorius e dois outros grupos finalmente conseguem simular a colisão de buracos negros depois de meio século de tentativas fracassadas, abrindo caminho para a detecção das ondas gravitacionais pelo LIGO em 2016.
    E desemboca no presente. Eugene Lim, do King's College de Londres, junto com Katy Clough da Queen Mary e Josu Aurrekoetxea de Oxford, construiu o que ele mesmo chama de Estrela da Morte computacional. As simulações estão sugerindo que a versão de inflação mais compatível com os dados do céu é, paradoxalmente, a versão menos provável de acontecer espontaneamente. Estão mostrando que a hipótese do bounce, defendida por Paul Steinhardt em Princeton, alisa o cosmos com a mesma eficiência que a inflação. Estão indicando que buracos negros de um universo anterior podem ter sobrevivido ao ressalto e estar entre nós agora.
    Tem ainda a história das quatro cicatrizes circulares que Hiranya Peiris encontrou no mapa do CMB do satélite WMAP em 2011, supostas marcas de outros universos que esbarraram no nosso. E tem o experimento absurdo em que cosmólogos britânicos colidem universos miniatura dentro de uma câmara de potássio resfriado a bilionésimos de grau acima do zero absoluto.
    A pergunta que durante um século foi proibida finalmente pode ser feita. Por enquanto, as respostas vêm em sussurros e correlações estatísticas. Daqui a uma década, podem vir em uma língua mais clara.
    A tela preta começou a tremer.
  • Horizonte de Eventos

    Horizonte de Eventos - Episódio 94 - Quem Chega Primeiro na Lua: China ou EUA?

    02/05/2026 | 53 mins.
    No dia onze de fevereiro deste ano, um foguete subiu da costa de Hainan ao amanhecer e fez algo que a imprensa internacional praticamente ignorou. Em vez de sumir no espaço, voltou. Subiu até passar dos cento e quarenta quilômetros de altitude, separou seu segundo estágio, deu meia-volta no ar rarefeito da estratosfera, reacendeu os motores, desceu, e pousou suavemente na água ao lado de um navio de recolha. Aquele era o primeiro estágio do Long March 10A, o foguete que vai levar a primeira tripulação chinesa à Lua antes de 2030. A China acabou de demonstrar publicamente que sabe pousar foguetes orbitais. E o mundo mal prestou atenção.
    Este é o segundo de dois episódios sobre o programa lunar chinês. Hoje, a conversa olha para frente. Para o que está prestes a acontecer.
    Em agosto deste ano, a Chang'e 7 vai partir rumo ao polo sul da Lua. Vai pousar num pico permanentemente iluminado pelo Sol perto da cratera Shackleton, e vai liberar um pequeno saltador movido a metano e oxigênio que tem missão histórica: descer fisicamente, com seus próprios motores, até o fundo de uma cratera onde o Sol nunca brilhou em pelo menos dois bilhões de anos, e medir o gelo de água que está lá embaixo, congelado a temperaturas mais frias que a superfície de Plutão.
    Em 2028 vem a Chang'e 8, com um robô humanoide bípede e uma impressora 3D que vai tentar fundir poeira lunar em tijolos usando luz do Sol concentrada por fibra ótica. Não é mais teste de laboratório com simulante terrestre. É a primeira tentativa de transformar regolito lunar real em material de construção.
    E em 2030, se tudo seguir o plano, dois taikonautas vão pousar na superfície da Lua. A arquitetura é elegante na simplicidade: dois lançamentos do foguete Long March 10, encontro em órbita lunar, descida no lander Lanyue, retorno na cápsula Mengzhou. Cada peça desse quebra-cabeça já tem precedente direto em missão chinesa anterior. A novidade é, basicamente, escala. E gente dentro.
    Falamos também do estado real do programa Artemis americano nesta primavera de 2026. Da vitória da Artemis II no primeiro de abril, do pouso adiado pela enésima vez para a Artemis IV, do Starship V3 que continua sem voar, do elevador de cinquenta e dois metros que pode emperrar com astronautas dentro, do Lunar Gateway suspenso, do Exploration Upper Stage cancelado. Duas estratégias para o mesmo destino. Uma conservadora, derivada de tecnologia já demonstrada. A outra ambiciosa, comercial, dependente de coisas que ainda nunca foram feitas.
    A pergunta que paira nos corredores da NASA, e que ninguém quer responder em voz alta: quem chega lá primeiro com gente?
  • Horizonte de Eventos

    Horizonte de Eventos - Episódio 93 - China Revela Mistérios Ocultos da Lua

    29/04/2026 | 58 mins.
    Descrição com 2.733 caracteres, bem dentro do limite de 4.000 do Spotify. Aqui está, pronta para colar:
    Em primeiro de junho de 2024, uma sonda chinesa chamada Chang'e 6 pousou num lugar onde a Terra nunca aparece no céu. Não é metáfora, é geometria. A face oculta da Lua, virada para o lado contrário do nosso planeta há quatro bilhões de anos, jamais vê o nosso azul nascer no horizonte. E foi exatamente lá, dentro da cratera Apollo, dentro da Bacia Aitken do Polo Sul — a maior e mais antiga cicatriz de impacto preservada em qualquer corpo rochoso conhecido do sistema solar — que os chineses recolheram quase dois quilos de rocha e poeira lunar e trouxeram para a Terra.
    Este é o primeiro de dois episódios sobre o programa lunar chinês. Hoje, a gente mergulha nas missões Chang'e 5 e Chang'e 6, nas amostras que elas trouxeram, e no que esses fragmentos de basalto começaram a revelar nos últimos meses sobre a história profunda da Lua.
    Vulcanismo que persistiu até dois bilhões de anos atrás, num manto que não tinha o que parecia necessário para derreter. O dínamo lunar que voltou a se reforçar há 2,8 bilhões de anos, contrariando o consenso de décadas. A face oculta com manto significativamente mais seco do que a face visível, sugerindo que o impacto que escavou a Bacia Aitken do Polo Sul redesenhou a química interna de um hemisfério inteiro. A datação precisa, pela primeira vez, desse mesmo impacto colossal em 4 bilhões e 247 milhões de anos. E a Changesita-Y, um cristal microscópico inédito, com o nome da deusa chinesa da Lua, isolado a partir de quase 140 mil partículas individuais.
    Falamos também sobre os 44 anos de silêncio entre a soviética Luna 24 e a chegada da Chang'e 5, sobre a engenharia da Queqiao 2 — o satélite-ponte que tornou possível a comunicação com o lado oculto — e sobre como esses achados reverberam pela planetologia inteira, ajudando a recalibrar a cronologia de Marte, Mercúrio, das luas de Júpiter e Saturno, de praticamente todas as superfícies rochosas que tentamos datar à distância.
    A Lua que conhecíamos era um livro pela metade. Tínhamos lido só a face visível. Agora, finalmente, alguém abriu o capítulo do outro lado.
    No próximo episódio: o que vem pela frente. As missões Chang'e 7 e Chang'e 8, a arquitetura da missão tripulada chinesa para 2030, e por que tudo isso conversa com o que está acontecendo — ou não está acontecendo — no programa Artemis americano.
    Apresentação: Sérgio Sacani — editor do blog Space Today e do canal Space Today no YouTube.
    Acompanhe também:Site: spacetoday.com.brYouTube: youtube.com/spacetodayInstagram: @spacetoday1
    #Astronomia #Lua #ChangE #China #ExploracaoEspacial #SpaceToday #HorizonteDeEventos #Cosmologia #Planetologia #BaciaAitken #SistemaSolar
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    Horizonte de Eventos - Episódio 92 - Traje Espacial: O Principal Problema do Retorno Para a Lua

    26/04/2026 | 50 mins.
    Descrição com 2.886 caracteres (dentro do limite de 3.000):
    Dezesseis de julho de 2013. O astronauta italiano Luca Parmitano flutua a quatrocentos quilômetros da Terra quando sente uma gota de água na nuca. Em poucos minutos, o capacete dele está enchendo. Um litro e meio de líquido cobre os olhos, o nariz, a boca. Ele volta para a câmara de descompressão guiado pela memória, cego, quase se afogando no espaço.
    Treze anos depois, em abril de 2026, astronautas continuam usando o mesmo modelo de traje que quase matou Parmitano. O mesmo equipamento desenhado nos anos setenta para o programa do ônibus espacial. O mesmo traje que vazou outra vez no capacete de Tim Kopra em 2016 e de Matthias Maurer em 2022.
    E a NASA precisa de um substituto. Precisa para a Estação Espacial Internacional, que será desativada em 2030. Precisa, principalmente, para a missão de pouso lunar do programa Artemis, prevista para 2028.
    Neste episódio, mergulho no relatório IG-26-006 do Office of Inspector General da NASA, publicado no dia vinte de abril, que escancara um problema gigantesco: depois de quase duas décadas tentando, depois de bilhões de dólares investidos, depois de quatro programas de desenvolvimento, a NASA ainda não tem um traje espacial novo pronto para usar.
    A história envolve a desistência da Collins Aerospace em 2024, deixando a Axiom Space — uma empresa fundada há menos de dez anos, sem nenhuma experiência prévia em trajes espaciais — como fornecedora única. Envolve parcerias inusitadas com a Prada, que faz os tecidos do traje, com a Nokia, que vai operar a rede 4G na Lua, com a Oakley, que desenhou a viseira, e com a GU Energy Labs, que cuida da nutrição dentro do equipamento. Envolve um cronograma original que era menos da metade do tempo histórico para projetos semelhantes da NASA. Envolve um traje que em 2024 estava acima do peso permitido, consumindo mais oxigênio, água e energia do que poderia. Envolve um conflito de design com o módulo de pouso da Blue Origin, com o lander Starship da SpaceX, com o veículo lunar de superfície.
    E envolve uma pergunta desconfortável: a parte mais difícil da volta à Lua, hoje, não é construir o foguete. Os foguetes existem. A Artemis II voou em abril de 2026 com tripulação. O Space Launch System funcionou. O que falta é a roupa.
    Conto a história completa, do A7L feito por costureiras da Playtex que durante o dia produziam sutiãs, até as oitocentas e cinquenta horas de testes que a Axiom acumulou no protótipo do AxEMU. Da pausa do programa Gateway em março passado, à primeira caminhada espacial comercial da Polaris Dawn da SpaceX em 2024.
    A NASA construiu o foguete do Artemis. Mas talvez tenha esquecido da roupa. E é por causa dela que a Lua continua esperando.
    Fonte: Relatório IG-26-006 do NASA Office of Inspector General — NASA's Acquisition of Next-Generation Spacesuit Services — 20 de abril de 2026.
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    Horizonte de Eventos Episódio 91 - O Fim Do Mundo Quando O Sol Morrer

    25/04/2026 | 52 mins.
    3.920 caracteres, dentro do limite com margem de segurança:
    Daqui a cerca de cinco bilhões de anos, o Sol vai começar a morrer. E quando uma estrela como a nossa morre, ela não simplesmente apaga. Ela inflama, incha, devora os planetas mais próximos, despeja metade da própria massa no espaço em pulsos sucessivos, deixa para trás uma nebulosa planetária de anos-luz de extensão e termina como um caroço denso do tamanho da Terra, sustentado por pressão quântica, esfriando ao longo de trilhões de anos rumo à temperatura do fundo cósmico.
    Esse é o destino do Sol. E também da Terra, de Júpiter, das luas geladas que hoje guardam oceanos sob crostas de gelo, do cinturão de asteroides, de tudo o que orbita por aqui. Neste episódio, conto essa história do começo ao fim. Não a partir do nosso ponto de vista humano, que vai ter sumido muito antes da fase mais dramática, mas a partir da física e da observação direta de outras estrelas que estão neste exato momento passando pelos mesmos estágios.
    Mercúrio é engolido inteiro pelo Sol em expansão. Vênus é vaporizado. A Terra fica pendurada numa incerteza real, debatida em artigos atuais, entre ser engolida ou escapar como casca calcinada. Os oceanos terão evaporado um bilhão de anos antes, porque o Sol já está aumentando de brilho num ritmo lento e inexorável. O destino biológico do planeta se decide muito antes do destino físico.
    As luas geladas do sistema externo entram, por algumas centenas de milhões de anos, na zona habitável temporária do Sol gigante vermelho. Europa, Ganimedes, Calisto, Titã, todas com um intervalo em que a água pode estar líquida na superfície. É uma janela curta em escala cósmica, e talvez a última oportunidade para vida nascer no nosso sistema.
    Depois da fase de gigante vermelha, o Sol expele o envelope numa nebulosa planetária. O que sobra no centro é a anã branca. Carbono e oxigênio com metade da massa solar comprimida num volume do tamanho da Terra. Uma colher de chá daquele material pesa uma tonelada e meia.
    Aqui a história fica menos conhecida e mais interessante. Discos de detritos só se formam em torno de anãs brancas depois que elas esfriam abaixo de 27 mil Kelvin. Discuto o trabalho de Jordan Steckloff, do Planetary Science Institute, que explicou esse limiar térmico em 2021. Conto sobre a cristalização do núcleo da anã branca, prevista em 1968 e finalmente confirmada em 2019 por Pier-Emmanuel Tremblay com dados do satélite Gaia, descobrindo um engarrafamento estatístico no diagrama de Hertzsprung-Russell que corresponde a estrelas em transição de fase, com o calor latente atrasando o resfriamento por bilhões de anos.
    Trago a descoberta recente da equipe de Érika Le Bourdais, da Universidade de Montreal, publicada em outubro do ano passado, sobre a anã branca LSPM J0207+3331. Três bilhões de anos depois da morte estelar, ela ainda está sendo poluída por treze elementos pesados de um corpo rochoso despedaçado pelas suas marés. Sistemas planetários continuam gravitacionalmente ativos muito depois do que se imaginava.
    E entramos no tempo profundo. Cem bilhões de anos depois da morte do Sol, encontros gravitacionais com estrelas vizinhas terão arrancado quase todos os planetas remanescentes. A galáxia inteira se desmonta. A Via Láctea já vai ter se fundido com Andrômeda. As estrelas restantes são ejetadas para o espaço intergaláctico. A anã branca que um dia foi o nosso Sol continua esfriando, atravessa a transição de anã negra, e em prazos de dez elevado a cem anos, se a radiação Hawking for universal, se dissolve em radiação.
    Mas antes da dissolução final, ela cristaliza por inteiro. Carbono comprimido sob pressão extrema vira essencialmente um diamante do tamanho de um planeta. O destino do Sol é um cristal frio vagando no escuro de um universo cada vez mais vazio. Uma imagem que muda a maneira como você olha para o céu de manhã.

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